15 anos em posições de diretoria e me ofereceram uma função de Analista

Muita gente me pergunta como eu vejo o mercado de trabalho para as pessoas trans. Certamente é possível ver muita coisa positiva acontecendo, principalmente para quem está começando a carreira profissional ou para quem já tem alguma experiência. É maravilhoso ver o incrível trabalho que fazem instituições como a Transempregos e a Projeto Transpor. Mas a seguir vou colocar a minha percepção para os casos em que o profissional trans já tem um histórico para ocupar cargos de liderança. Vou começar explicando o título dessa publicação.

Me apresentava na expressão de gênero masculina, homem branco, magro, alto, hétero sempre trabalhando em multi nacionais. Ocupei durante 15 anos cargos de diretoria, falo além do português, também o inglês e o espanhol com fluência, tenho pós graduação e especialização, vivi fora do país ocupando cargos importantes, inclusive liderando funções em toda a América Latina.

Hoje vivo dentro da expressão de gênero feminina, aquela à qual me sinto plenamente feliz. Sou uma mulher transgênero. Não foi uma decisão fácil assumir quem eu realmente sou. Fazem alguns meses, fui convidada para participar de um processo seletivo para a função de Analista. A minha primeira reação foi começar a pensar que o meu LinkedIn estava muito mal elaborado.

Depois de conversar com a pessoa que estava conduzindo o processo, ela conheceu o meu currículo com mais detalhes, ficou evidente que a minha experiência era para funções de alta gerência. Ela ficou bastante incomodada e pediu muitas desculpas.

De forma alguma me senti ofendida por essa pessoa ou tenho algum ressentimento. Inclusive, fiquei sensibilizada pela reação de desconforto dela e procurei fazê-la não se sentir culpada pelo que estava acontecendo.

Certamente está no sub consciente da sociedade que não existem mulheres trans com formação acadêmica sólida aliada a muita experiência. Basta lembrar que 90% das mulheres trans e travestis estão na prostituição.

Mas, depois de acontecer essa proposta, começaram a aparecer uma enormidade de reflexões na minha mente.

Quando olho para as pessoas que me aceitam de forma incondicional, me vejo com muita sorte. Entre essas pessoas estão meus filhos que me vêm como uma pai e a minha mãe que com 80 anos compreendeu rapidamente o poder que ela tinha. O poder do amor de mãe que ajuda tanto uma filha a superar qualquer barreira.

Escolhi colocar foco em uma recolocação na área industrial com proximidade total com a área de produção. Adoraria voltar a trabalhar em uma fábrica gerenciando todas as atividades para mantê-la na mais alta produtividade. Foi o que eu mais estudei e aprendi a fazer e ainda na minha opinião, essa é a melhor porta de entrada para se conhecer o Supply Chain de uma empresa.

Participei até aqui de alguns processos seletivos e as pessoas gostam de quem elas estão entrevistando, tenho a face da experiência, de bons resultados, de um estilo gerencial bastante flexível e servidor. Mas acredito que então ocorre algo inevitável, quem está me entrevistando começa a refletir sobre a mulher transgênero que também faz parte dessa face.

O entrevistador talvez se auto questione sobre como essa diretora ou gerente geral de fábrica poderá se sair bem em algum lugar, quem sabe em uma pequena ou média cidade onde será necessário o contato ou a negociação com autoridades públicas locais relacionadas ao meio ambiente, fornecimento de insumos, água, eletricidade. Como seria negociar com políticos conservadores ou uma sociedade ultra religiosa? E com os sindicatos? O recrutador começa então a se perguntar. Essa líder, uma mulher trans, poderá enfrentar esses obstáculos que uma parte da sociedade que é preconceituosa impõe?

Quando estamos em um processo seletivo para uma certa posição e não somos escolhidos para ocupá-la, obviamente, a primeira impressão que naturalmente vem em nossas cabeças é que a pessoa que foi preferida foi considerada ter um melhor perfil que o nosso! Quem sabe estou imersa em pensamentos muito duros, mas é difícil eu como mulher trans, não pensar que possíveis barreiras impostas pela minha condição possam não ser algo a se considerar.

Uma outra reflexão, normalmente as minorias ou os grupos desprovidos de privilégios precisam de alguém dentro das empresas com mais autoridade para transmitir suporte e eliminar as dificuldades já instituídas a tanto tempo. Ou seja, alguém com poder suficiente precisa atuar para mudar a cultura, a forma das coisas serem feitas e abrir espaços no dia a dia. Assim tem sido com as mulheres cis e pessoas pretas por décadas nas empresas onde elas ocupam posições de expressão. Certamente homens cis, héteros e brancos em cargos mais altos abriram ou facilitaram o caminho para isso. Um bom exemplo para entender esse ponto é assistir o excelente filme Estrelas Além do Tempo.

Me pergunto, será que aqui no Brasil presidentes e diretores de grandes corporações se sentem em condições ou estão dispostos a advogar por uma pessoa trans para altos cargos de liderança?

Da minha parte, resta dizer que tenho plena consciência de todas as dificuldades que estou abordando aqui. Ao ser contratada para uma posição de alta gerência, eu daria o meu melhor como profissional, muito mais do que todo o esforço que eu sempre coloquei para obter sucesso em tudo aquilo que eu fiz até hoje.

De forma alguma estou querendo transmitir negatividade, apenas quero trazer um lugar para reflexões. Tenho um forte sentimento de que estamos na direção de ver um futuro melhor, onde a diversidade e as pessoas trans estarão ocupando funções de liderança como resultado de suas competências, mas, certamente ainda existe um caminho a se percorrer para ver isso acontecendo.

O que você acha? Você tem alguma opinião sobre esse aspecto da inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho?



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